Classificação da Vegetação para Fins de Licenciamento Ambiental

Enquete – Há Estágios Sucessionais no Cerrado?

Este tópico contém resposta, possui 1 voz e foi atualizado pela última vez por Foto de perfil de Rodrigo Polisel Rodrigo Polisel 4 meses atrás.

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    Olá!

    Hoje, o post é para falar de um dos Hot-Spots de megabiodiversidade do planeta: o Cerrado Brasileiro!

    E ainda sobre uma discussão no mínimo “polêmica”: Há estágios sucessionais entre as fisionomias que compõem este complexo vegetacional?

    A última enquete do eFlora teve a seguinte pergunta:

    Sobre o Cerrado, assinale a alternativa CORRETA:

    a) É um domínio de vegetação predominantemente florestal,

    b) Não possui tipologia florestal,

    c) É um bioma que ocorre no Brasil Central,

    d) Representa um domínio com diversas formações fitofisionômicas,

    e) Apresenta uma flora com diversas famílias endêmicas

     

    Tivemos uma participação expressiva entre nossos seguidores. Agradeço a participação de todos(as)! 🙂

    – 55% optaram pela alternativa D, a correta. O Cerrado representa um domínio com diversas formações fitofisionômicas; 24% optaram pela alternativa C (“a pegadinha”), citando que é um Bioma que ocorre no Brasil Central. As demais respostas eram completamente desconectas e tiveram de 2 a 3% cada.

    Vamos organizar o nosso raciocínio:

    1) Bioma x Domínio

    Existe uma grande confusão na literatura entre estes dois conceitos. Vamos direto ao ponto!

    De acordo com Walter (1986), bioma é “uma área uniforme pertencente a um zonobioma, orobioma ou pedobioma”. Este conceito é fundamentalmente ecológico, tendo em vista que relaciona não só o clima (zono), mas também a altitude (oro) e o solo (pedo).

    Coutinho (2001) efetuou uma ampla revisão de literatura e avançou em deixar claro a importância da biota na conceituação de Bioma. Segundo ele, bioma é “uma área do espaço geográfico, com dimensões de até mais de um milhão de quilômetros quadrados, que tem por características a uniformidade de um macroclima definido, de uma determinada fitofisionomia ou formação vegetal, de uma fauna e outros organismos vivos associados, e de outras condições ambientais, como a altitude, o solo, alagamentos, o fogo, a salinidade, entre outros. Estas características todas lhe conferem uma estrutura e uma funcionalidade peculiares, uma ecologia própria”.

    Assim, já que Bioma é entendido como uma área onde se distribui um determinada formação associada a uma fauna específica e condições próprias de clima e solo, o Cerrado deve ser entendido como um COMPLEXO DE BIOMAS (Coutinho 2001) (e não apenas UM bioma como informado na alternativa C), já que co-ocorrem diferentes formações (p.e.: savana gramíneo-lenhosa, savana arborizada, savana florestada, florestas semidecíduas aluviais “matas de galeria”, florestas decíduas “matas secas” e entre outras). Todas com flora própria e comunidade faunística distinta.

    Já Domínio de Vegetação é um nível de classificação de cunho fitogeográfico para designar uma área caracterizada por espécies endêmicas. Segundo o IBGE (2012), o nível elementar de organização de um sistema fitogeográfico é decomposto em: Zona, Região, Domínio e Setor.

    Zona: É a área classificada pela presença de Famílias Endêmicas. Exemplos: Zona Neotropical (entre México e Patagônia) e Zona Paleotropical (África subsariana),

    Região: É uma subdivisão da zona caracterizada por gêneros endêmicos, como cada um dos principais tipos de vegetação do Brasil (florestas ou savanas).

    Domínio: É uma área em subdivisão da região caracterizada pela presença de espécies endêmicas.

    Setor: Sub-divisão do domínio, onde ocorrem variedades endêmicas.

    Assim, por conter espécies endêmicas, o Cerrado pode ser entendido como um Domínio de Vegetação com diversas fitofisionomias (alternativa D).

     

    2) Graus Sucessionais no Cerrado.

    A grande polêmica! A principal questão aqui é: Como pode comunidades condicionadas a situações edáficas específicas (pedobioma) serem analisadas do ponto de vista Sucessional?

    De fato, o cerrado é caracterizado por um gradiente de diversas formações de vegetação que respondem a gradientes de recursos.  De modo geral, as fisionomias mais abertas possuem menor disponibilidade de água, maior suscetibilidade ao fogo, solos menos férteis e mais tóxicos, enquanto que fisionomias mais fechadas possuem maior disponibilidade de água, menor incidência de fogo, solos mais férteis e menos tóxicos.

    Na maior parte de sua área de distribuição, essas fisionomias não evoluem estruturalmente. Ou seja, a fisionomia de Savana Gramíneo Lenhosa não evolui para uma Savana Arborizada e esta não evolui para uma Florestada.

    Essa lógica de uma ser a “sere sucessional” da outra é incorreta.

    E isso tem sido colocado em algumas legislações sobre a classificação da vegetação de Cerrado e de seus estágios de regeneração para fins de Licenciamento. Conheça a lei correlata aqui para o Estado de São Paulo.

    Você já visitou um Cerradão (Savana Florestada) em estágio AVANÇADO de Regeneração?! Um Cerrado Senso Stricto (Savana Arborizada) em Estágio Inicial ou Médio de Regeneração?! É algo difícil de compreender, não acha?

    Até por isso, eu iniciei o Curso Intensivo sobre Bases Ecológicas e Classificação de Vegetação do Cerrado e Mata Atlântica, o qual será finalizado até o final deste semestre aqui no portal eFlora. Conheça o programa do curso e o que já há disponível lá clicando aqui!

    Neste curso, iremos em campo testar os parâmetros propostos nesta resolução para a classificação dos diferentes “estágios de regeneração” das fisionomias de cerrado e discutir se isso é efetivamente possível.

    O Cerrado é um ambiente muito complexo, associado a diferentes gradientes de recursos que condicionam a distribuição da vegetação. Além disso, há o fogo, um fator que influencia diretamente a manutenção de fisionomias campestres.

    Estudos conduzidos pela Dra. Giselda Durigan têm mostrado que uma vez protegido da ação do fogo, o Cerrado tende a se tornar mais adensado (“evoluindo” aparentemente de uma fisionomia campestre, para o senso-stricto e até Cerradão).

    Vale dizer que essas pesquisas foram conduzidas no Estado de São Paulo, no limite meridional de sua área de ocorrência no Brasil. Veja mais em Mistry et al. (2010) e Durigan e Ratter (2016). Saliento que novos estudos poderão elucidar em que situação o Cerrado pode apresentar essa “gradação” fitofisionômica e se é apenas o fogo (ou a falta dele) o direcionador desse processo.

    Estas legislações que buscam classificar diferentes graus de regeneração no Cerrado desejam, na verdade, avaliar o grau de conservação desses ambientes, visando a proteção daqueles mais conservados e como efetuar o manejo daqueles trechos menos conservadas. Sobre este assunto, ainda, eu convido você a assistir o vídeo que eu postei no meu canal do Youtube sobre Fatores de Degradação do Cerro. Assista aqui e saiba mais!

    Este domínio será assunto do próximo evento AO VIVO oferecido pelo portal eFlora. Será dia 06 de março às 20h e o ministrante será o Dr. Bruno Aranha, especialista em Cerrado e cujo doutorado avaliou aspectos históricos e biogeográficos deste importante domínio de vegetação do Brasil.

    Esteja presente no dia da transmissão. A palestra será aberta a quem estiver presente na sala virtual. O assinante eFlora terá a vantagem de baixar o certificado do evento e assistir numa outra oportunidade caso não seja possível assistir ao vivo. Saiba mais sobre o evento aqui!

    Até a próxima!

    Abraços,

    Rodrigo Polisel

     

    Referências Bibliográficas:

    COUTINHO, L.M. O conceito de Bioma. Acta Bot Bras, v. 20, n. 1, p. 1-12. 2001

    DURIGAN, G; RATTER, James Alexander . The need for a consistent fire policy for Cerrado conservation. Journal of Applied Ecology, v. 53, p. 11-15, 2016.

    IBGE. Manual de Classificação da Vegetação Brasileira. Rio de Janeiro. Editora do IBGE. 2012.

    MISTRY, J.; BERARDI, A.; DURIGAN, G. The influence of fire regime on microscale structural variation and patchiness in Cerrado vegetation. Revista do Instituto Florestal, v. 22, p. 33-49, 2010.

    WALTER, H. Vegetação e Zonas Climáticas. São Paulo, E.P.U. Ltda. 1986.

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